quarta-feira, 9 de novembro de 2011

A Torre

                          Noite chuvosa de novembro e só se ouvia o barulho tenebroso da tempestade destruindo tudo o que encontrava pela frente. De repente, a janela arrebentou num estrondo ensurdecedor e Sofia sentiu um frio na espinha como se seu corpo tivesse sido contaminado por um veneno que lhe imobilizava os movimentos e até a batida do seu coração.
                          Olhava para todas as direções, mas não tinha nada e nem ninguém. Sim, era apenas a força da natureza que somada à sua imaginação estava a lhe pregar peças. Tomou coragem e seguiu em direção à janela para fechá-la. Poderia ter simplesmente fechado o local por onde passava a corrente de ar, mas não resistiu e olhando para fora avistou ele, seu algoz, o homem que a trancara naquela torre.
                          Lá do alto ela conseguiu reconhecê-lo. Figura rústica, trajes pesados, cabelos encaracolados, olhar penetrante. Jamais o esqueceria. Não conseguia entender por que ele a havia trancado naquela torre, por que ele não gostava dela sendo que sempre tentou agradá-lo, sempre foi amável com ele.                    
                          Não era capaz de dizer a quanto tempo estava trancafiada naquele lugar. Era um quarto pequeno com cama, escrivaninha, pois ele sabia que adorava escrever, uma mesinha pequena para refeições, um banheiro pequeno e um guarda-roupas no qual continha vários vestidos idênticos ao usado por ela no último encontro. Todas as manhãs encontrava a mesa posta com as refeições do dia e um botão de rosa vermelha na escrivaninha. Nunca mais falou com ela, muito menos a deixou vê-lo novamente, mas sempre rondava a torre para garantir que ninguém a encontrasse.
                           Sofia já se acostumara com aquela situação, pois o tempo a fez acreditar que ele foi capaz de trancá-la alí, porque a amava. A situação em sí já não a incomodava mais, pois já se adaptara à rotina de esperar todas as noites para avistá-lo durante a ronda noturna e sentia que naquele momento ele era somente seu.
                           No entanto, um dia, ao acordar, percebeu que a mesa não estava posta, que o botão de rosa vermelha não estava em cima da escrivaninha, que o guarda-roupas estava vazio e, pior, que a porta da torre estava aberta. Sofia foi tomada por um sentimento de ódio e desespero profundo não entendia o que ele estava querendo lhe dizer, chorou por horas e prostou-se diante da janela aguardando o cair da noite. Mas a lua apareceu e ele não veio. Sofia se deitou na esperança de que ao acordar tudo teria voltado ao normal.
                            E por vários dias Sofia seguiu seu ritual de espera, mas ele não voltou. Já desprovida de forças devido à falta de alimentação se viu obrigada a sair dalí. Ouviu uma voz interior lhe dizendo que era preciso continuar, que tudo acabaria bem. Já não sabia diferenciar o que era real do que era delírio. Nesse momento, juntou o resto de forças que ainda que restavam e saiu por aquela porta que antes ele tinha fechado para que fosse somente dele, mas que agora deixava aberta para que prosseguisse sozinha.
                           Perdeu as contas de quantos degraus desceu, mas era como se a cada degrau seu amor por aquele homem fosse esvaindo-se. Quando chegou ao último degrau, se deparou com a luz do sol e sentiu a maresia tocando sua face. Derramou a última lágrima que não foi de dor e sim de epifania. Respirou fundo e foi ser feliz.

domingo, 6 de novembro de 2011

Novembro

                     Novembro chegou trazendo consigo uma penúltima chance para você não deixar seu ano passar em branco. Sim, você ainda pode virar o jogo a seu favor. Mas seu eu interior tão receoso e já tão combatido se pergunta: Meu Deus, ainda é possível?
                     E eis que surge lá bem no fundo de sua caixa preta de emoções uma voz gritando desesperadamente: Sim, há esperança, há uma chance, basta acreditar. E você começa a sentir os eflúvios invadirem seu corpo, sua alma, seus pensamentos. E como uma Fênix, você resurge da escuridão e alça um vôo revitalizante em direção à uma nova jornada.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Questionamentos

Dizem que o tempo voa
E quando estou a enlouquecer de tanta coisa por fazer eu me pergunto: Será?
Dizem que o tempo castiga
E quando me pego a examinar se meu corpo está a desmoronar eu me pergunto: Será?
Não cheguei à conclusão se o tempo voa ou castiga
Mas de uma coisa estou certa
Mil perguntas vivem a me atormentar

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Nem Sempre o que Parece É

Nem sempre quando pareço estar estou,
Mas na maioria das vezes é quando não pareço estar
Que realmente estou...

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

FOME

Fome de sabor,
Fome de odor,
Fome de calor,
Fome de tremor,
Fome de ardor...
F O M E

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

ALGUÉM

Não quero ser só mais uma para alguém,
Quero ser "ALGUÉM" no mundo de outrem.
Desejo viver uma alegria jamais sentida por ninguém,
E realizar fantasias que me farão ir muito mais além.

Terra do Nunca

Mariana morava numa cidadizinha pequena. Sua família não tinha posses, mas nunca faltou comida na mesa. Sua maior alegria era quando pegava sua bicicleta roxa e saia para suas aventuras com sua turma de amigas. Como era bom encontrar uma baixada, acelerar, soltar as mãos do guidom da bicicleta e sentir a brisa da liberdade em seu rosto.

O gosto pelo perigo e pela aventura era forte e um belo dia decidiram explorar o que havia após o limite da fronteira da cidade. A excitação do inesperado era deliciosamente fascinante e ao mesmo tempo amedrontadora. Era a primeira vez que as meninas iriam para um lugar onde ninguém as vigiasse.

Depois de algum tempo de pedalada, pararam em um morro de onde avistavam a cidade toda e de onde nunca tinham ousada passar. Nesse instante houve um silêncio profundo e as amigas se olharam como se naquele momento firmassem um pacto de cumplicidade eterna. Tomaram impulso, pois a subida era absurdamente inclinada, e prosseguiram.

Passado um tempo, avistaram em meio a uma poeira que tomava todo o espaço estreito da estrada, uma caminhonete em alta velocidade. Mariana e suas amigas se viram sem saída e atordoadas por um pavor nunca antes sentido que as deixou estáticas.

A caminhonete antiga e de vidros escuros se aproximou das meninas com a mesma velocidade com que seus corações batiam. E a medida que o vidro da janela do Ford ia baixando aparecia a figura rústica e castigada de um velho. Nesse instante as meninas respiraram aliviadas pois naquele reconheceram o senhor Ananias, o dono da padaria mais famosa da cidade. 

 — O que vocês fazem aqui meninas? Não sabem que é perigoso andarem sozinhas por essas bandas. 

Mariana ainda com a sensação de alívio que tomou conta de seu corpo pequenino respondeu com alegria:

— Só estávamos avistando a cidade do alto senhor Ananias. 

E o velho, como uma espada impiedosa, lançou a pergunta que a fez sentir o arrepio de outrora. 

— Seus pais sabem por onde andam?

Nesse momento, todas se olharam como querendo reafirmar o pacto realizado no início da aventura. E Mariana, com toda firmeza de uma atriz de teatro respondeu.

 — Claro que sim. E já estamos voltando, pois a mãe da Lilí disse para não demorarmos, porque iria fazer um bolo de chocolate para comermos no lanche. 

Com um olhar de desconfiança o velho fez sinal de adeus, fechou o vidro do carro e prosseguiu sua viagem. As meninas, persebendo que o dono da padaria havia reduzido a velocidade, certamente para confirmar a versão recebida, pedalaram de volta para a cidade. Somente quando adentraram nos limites da cidadizinha é que o velho retomou a velocidade normal.

As meninas seguiram para uma pracinha ao lado da casa de Lilí onde puderam se recuperar do susto. Passaram vários dias receosas de que o velho Ananias pudesse comentar o acontecido com alguém ou pior com seus pais.

Mas o que elas jamais imaginariam é que o menino que ainda habita a alma daquele senhor de cabelos grisalhos, naquele dia, sentiu uma inveja e uma grande admiração por aquele grupo de meninas e principalmente por Mariana que se mostrou tão segura de sí. Pois elas estavam fazendo o que ele, que também nasceu e passou sua infância naquela cidadizinha, sempre teve vontade de fazer, mas nunca teve coragem — explorar um mundo cheio de aventuras. Naquele momento, o velho se viu com sete anos de idade novamente pedalando sua bicicleta verde bandeira.

Desde então, toda vez que as meninas se cruzavam com o velho Ananias em seus olhos surgia o medo da delação e em contrapartida nos olhos dele surgia o desejo de saber se as meninas já haviam conseguido adentrar naquele mundo tão sonhado por ele. Embora tenham adiado a busca pelo desconhecido, todos os dias, as meninas formulavam planos infalíveis que mais cedo ou mais tarde as levariam à Terra do Nunca.